17 maio

Em 2005, a Ford trouxe de volta o GT40. Ele não se chamava mais GT40, porém, e sim Ford GT – uma oficina americana registrou o nome e não quis vendê-lo de volta a Ford. De qualquer forma, o carro sequer tinha 40 polegadas de altura como o vencedor das 24 Horas de Le Mans de 1966 a 1969. Mas era um tributo mais do que digno ao lendário bólido anglo-americano, reproduzindo com fidelidade impressionante as linhas de sua carroceria e de seu interior sem, com isto, parecer datado. Foi um grande feito de design.

Só que o Ford GT lançado em 2005 e produzido até 2007 era um halo car, um superesportivo com motor V8 supercharged de 558 cv (derivado da picape F-150 SVT Lightning), interior relativamente confortável, um bom sistema de som (opcional), feito para rodar nas ruas.

Dez anos depois, em 2015, a Ford anunciou que traria o GT de volta, e o fez junto com o anúncio de Forza Motorsport 6. Foi um escândalo, pois ninguém estava esperando. E a fabricante fez questão de nos deixar a par de todo o desenvolvimento do carro, permitindo até que alguns veículos da imprensa internacional dessem uma volta nos modelos de pré-produção. Agora, a versão definitiva já está entre nós, e foi testada como se deve pela mídia automotiva.  O que estão falando do Ford GT?

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A primeira coisa que você deve saber é que, apesar de ser radicalmente diferente de seu antecessor, o novo Ford GT é mais próximo do GT40 em um aspecto importante: ele nasceu como carro de corrida. A Ford revelou que o GT nasceu como um Ford Mustang de corrida, com motor V8 na dianteira e tudo mais, para disputar as 24 Horas de Le Mans na categoria GTE, para carros produzidos em série. Então, os engenheiros da Ford começaram a modificar o Mustang para as pistas e perceberam que, com o motor na dianteira, havia sérias limitações dinâmicas que jamais colocariam o carro à frente da Ferrari ou da Lamborghini, que colocam a 488 GTB e o Huracán para disputar a prova de 24 Horas. Então, oficialmente, o projeto foi cancelado.

Como conta a Autocar, porém, extraoficialmente o projeto continuou, exatamente como costumam nascer alguns dos automóveis mais icônicos para os entusiastas: às escondidas. Um time de 20 engenheiros decidiu seguir em frente com o projeto nas horas vagas e só mostrar à diretoria quando tivessem algo realmente concreto. Quando isto aconteceu, o carro havia “se transformado” em um novo Ford GT.

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Não havia como ser diferente: o GT40 é um dos maiores Ford de todos os tempos e fez fama exatamente nas 24 Horas de Le Mans. Na hora de criar um carro de corrida com motor central-traseiro, era natural prestar a homenagem. Além disso, o regulamento da categoria GTE só exige que uma versão de rua esteja disponível para os clientes, e não diz que o carro precisa ter nascido para as ruas e depois ser transformado em um carro de competição.

Ou seja: como já dissemos, o Ford GT é um carro de corrida que virou carro de rua. Um especial de homologação. Ele tinha a obrigação moral de ser um grande esportivo de rua. E ele é.

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Quer dizer, assim que você consegue entrar nele. De acordo com a Car and Driver, fica claro que o GT é um carro de corrida quando você tenta se ajeitar no banco do motorista e bate a cabeça na gaiola de proteção oculta sob o revestimento do teto, que é bastante baixo. Se, do lado de fora, apenas as proporções gerais lembram de leve o GT40, no interior o negócio é completamente diferente. Diz a publicação:

“Este carro não é todo retrô como seu antecessor de 2005, com sua cabine gigante comparativamente. Todos os dados vêm de telas digitais, uma na frente do motorista, mostrando a velocidade, as rotações do motor e mensagens como “porta do motorista aberta”. Um grande botão anodizado no esguio console central liga o motor V6 biturbo de 3,5 litros, e o seletor de marchas perto dele parece meio deslocado, como se tivesse vindo de um Ford Fusion.”

O interior do carro não é feio, mas de fato é apertado. Segundo a britânica Autocar, os passageiros se sentam tão próximos quanto em um Caterham, o que contrasta com a largura de mais de dois metros (2,2 metros de espelho a espelho). Mas a gente já sabe porque ele é tão largo: aerodinâmica. Como detalhamos aqui, visto de cima, o Ford GT tem a forma de uma gota, e as colunas C flutuantes atuam como dutos aerodinâmicos. O resultado é um habitáculo bastante estreito, o que denota que a primeira preocupação foi vencer corridas, e não agradar quem vai usar o carro nas ruas. Por causa disso, também, os bancos são fixos – na hora de realizar ajustes, o que se move são a caixa de pedais e o volante.

O interior do carro não é feio, mas de fato é apertado. Segundo a britânica Autocar, os passageiros se sentam tão próximos quanto em um Caterham, o que contrasta com a largura de mais de dois metros (2,2 metros de espelho a espelho). Mas a gente já sabe porque ele é tão largo: aerodinâmica. Como detalhamos aqui, visto de cima, o Ford GT tem a forma de uma gota, e as colunas C flutuantes atuam como dutos aerodinâmicos. O resultado é um habitáculo bastante estreito, o que denota que a primeira preocupação foi vencer corridas, e não agradar quem vai usar o carro nas ruas. Por causa disso, também, os bancos são fixos – na hora de realizar ajustes, o que se move são a caixa de pedais e o volante.

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Outra herança dos carros de corrida é o sistema de suspensão, que é do tipo pushrod, com amortecedores inboard e braços sobrepostos e altura ajustável. Quando se coloca no modo track, o carro abaixa abruptamente, como se estivesse sobre um macaco hidráulico (ou sobre os air jacks dos carros de corrida), e o inverso ocorre quando se sai do modo track.

Dito isto, a publicação se surpreendeu com o modo como o supercarro se comporta:”[O Ford GT] tem um nível de compostura – aquele equilíbrio entre dinâmica e conforto ao rodar – que eu não tenho certeza se experimentei tão bem em 20 anos testando carros . Ele é tão complacente, mas ao mesmo tempo rola tão pouco, e os movimentos da carroceria são tão controlados, que é genuinamente de cair o queixo”, diz Matt Prior, da Autocar.

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E ele não foi o único, como mostra este trecho da avaliação do Top Gear:

“No instante em que você sai com o carro, você percebe uma energia focada e condensada. Nada de frescura, apenas a deliciosa sensação de estar sentado em uma máquina muito bem acertada, com engenharia muito precisa. Com o cinto afivelado, você sente as vibrações, os movimentos, e tem uma noção real do que as rodas estão fazendo. As fotos revelam que o carro rola sim, o suficiente para que os para-lamas engulam os pneus, mas você não sente. O que você sente é aderência pura, e um equilíbrio sensacional no meio das curvas.”

E o ronco do motor V6 biturbo? Apesar de ter a potência elevada para 655 cv, trata-se de um Ecoboost, que compartilha cerca de 40% de seus componentes com o motor da Ford F-150 Raptor. A má notícia é que, de acordo com a Road and Track, “o ronco não importa”:

“A entrega de potência é linear, com uma puxada limpa entre mais ou menos 3.000 rpm e o limite de giro. Mas o ronco não muda muito à medida que o tacômetro sobe, nem mesmo quando a pressão nos turbos aumenta das 5.000 rpm em diante. E o V6 também não tem um ronco muito exótico para começar, então você tem de ficar empolgado com o pedigree de corrida do motor. Mas o turbo lag é praticamente inexistente, em parte por causa do anti-lag (anti-lag, em um carro de rua) que mantém os turbos girando a 20.000 rpm nos modos Sport e Track.”

Dito isto, o ronco é um dos poucos defeitos apontados nas análises que lemos – outro foi a falta de comunicatividade da direção que, apesar de hidráulica e com o peso certo, transmite menos a situação dos pneus sobre o asfalto do que se esperaria em um carro como este. O tom geral, porém, é de satisfação. Além disso, das 1.000 unidades planejadas pela Ford até 2020, 1.000 já foram vendidas, e disputadíssimas. O novo Ford GT já entrou para a história.

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