07 jun

Por décadas os motores de combustão interna, especialmente os movidos a gasolina, nos pareceram insubstituíveis. Claro, no Brasil tivemos o álcool (ou etanol), e na Europa e outros países os carros movidos a diesel também tiveram seu espaço. Hoje em dia, porém, estamos avançando rápido em direção aos híbridos e elétricos, e podemos imaginar que, dentro de não muito tempo, estes não serão mais considerados “alternativas” aos motores tradicionais, e sim a norma. Já discorremos a respeito disto algumas vezes.

No entanto, a questão de procurar maneiras alternativas de fazer um carro andar não vem de hoje: nas últimas décadas, por diferentes razões, as fabricantes investem nesta busca. A Chevrolet, por exemplo, o fez no fim dos anos 1960, com este Chevelle movido a vapor. De verdade!

Veículos movidos a vapor não são nenhuma novidade – estão mais para peças de museu. Nos primórdios do automóvel, eles eram bem comuns, e demorou um tempo até que se percebesse que, para meios de transporte pessoais, como carros e motocicletas, a gasolina era mais eficiente do que a água em estado gasoso.

Por décadas, a indústria automotiva não se preocupou com eficiência energética: do início do século passado até meados dos anos 60, o que importava era ter motores (e carros) cada vez maiores e mais potentes, e não é difícil entender o motivo. Que entusiasta nunca sonhou em acelerar um muscle car com um V8 big block de sete litros, torcudo, barulhento e agressivo?

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Só que, a certa altura, o pessoal começou a se ligar: o petróleo é finito, e não duraria para sempre. Além disso, a emissão de poluentes pelo escape estava prejudicando bastante a qualidade do ar. Era o começo de uma crise que se instaurou de verdade nos primeiros anos da década de 1970 e teve como uma de suas consequências a extinção das boas e velhas banheiras americanas.

Para tentar frear a chegada da crise, o governo americano pediu que as fabricantes tentassem, a todo custo, encontrar maneiras de reduzir o consumo de combustível e a emissão de gases tóxicos. E foi assim que, em 1969, a Chevrolet criou este Chevelle, batizado de “SE-124”.

Na verdade não foi exatamente a GM quem criou este carro, e sim um cara chamado Bill Besler, que naquela época havia comprado uma das mais antigas fábricas de motores a vapor dos EUA, a Doble. Besler era entusiasta dos veículos a vapor havia pelo menos três décadas – em 1933, ele construiu e pilotou um avião movido a vapor.

Sendo dono de uma das mais tradicionais empresas especializadas em motores a vapor dos Estados Unidos – os primeiros projetos da Doble datavam de 1906 – Besler foi um dos primeiros a quem a GM recorreu quando decidiu criar um carro a vapor. E ele já sabia exatamente o que fazer.

De posse de um Chevelle quatro-portas branco e novinho em folha, Besler começou as adaptações. O primeiro passo foi transformar o V8 em um V4, retrabalhando o bloco para manter sua porção traseira ligada à carcaça da transmissão, o que significa que o carro manteve sua caixa manual de três marchas original. Onde ficava o resto do motor, foi instalada uma caldeira (na verdade, um “gerador de vapor”) com um queimador a querosene – este, expelido através de um vaporizador.

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Estão nos acompanhando até aqui? Beleza. O querosene era armazenado nos tanques de combustível originais do carro, enquanto a água ficava em um tanque adaptado no porta-malas, abastecido por um bocal na coluna “C” direita. Aquecida pelo querosene, a água se transformava em vapor e era conduzida pela tubulação do carro até o primeiro cilindro, de alta pressão.

O bloco do motor foi retrabalhado para lidar com o vapor, e funcionava mais ou menos assim: depois de sair da caldeira, o vapor entrava nos cilindros do lado esquerdo, onde a pressão era alta, e movia os pistões daquele lado. Em seguida, passava para o lado do passageiro, onde movia novamente os pistões, mas desta vez com a pressão um pouco mais baixa. Então, passava por um condensador (montado onde antes ficava o radiador, e muito parecido com ele) que tinha a função de, bem, condensar o vapor em água novamente. A partir dali, o ciclo começava de novo.

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Se o gerador de vapor fosse maior, o carro seria mais potente. No entanto, como o espaço no cofre era limitado (quem diria que isto seria dito de um Chevelle?), o carro gerava apenas 55 cv. Dito isto, o sistema era confiável o bastante a ponto de o hodômetro marcar 5.000 milhas (cerca de 8.000 km) rodados com vapor. O ciclo pelo qual a água passava permitia um funcionamento praticamente sem perdas, e o sistema era a prova de explosões – uma grande preocupação nos motores a vapor mais antigos. O sistema começava a gerar vapor depois de 30 segundos em funcionamento, e após dois minutos já estava operando a toda capacidade.

Havia, ainda, outra vantagem: o queimador deste projeto usava querosene, mas a adaptação para usar outros combustíveis, fósseis e não fósseis, era bastante simples. Além disso, independentemente do combustível usado, a emissão de poluentes era invariavelmente menor que em um motor tradicional, afinal a queima era usada apenas para a geração de vapor.

Evidentemente, porém, o projeto não foi para a frente: ainda em 1969, a Chevrolet percebeu que estava investindo em uma solução antiga para um problema novo. Não, o carro a vapor não era o futuro. Por isto, devolveu o carro para Besler e pagou por seus serviços.

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Besler acabou doando o Chevelle SE-124 para um museu, que vendeu o carro pouco tempo depois. O projeto mudou de dono algumas vezes nas últimas décadas e hoje pertence à coleção de Tom Kimmel, americano que reúne, em sua propriedade no estado do Michigan, diversos itens relacionados à história dos veículos a vapor nos EUA. Ele pretende fazer com que o Chevelle a vapor funcione novamente em um futuro próximo.

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